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IA no Brasil: Líder na América Latina em Adoção, mas 72% das Empresas Ainda Engatinham

71% dos profissionais brasileiros já usam IA no trabalho, acima da média global. Mas 72% das empresas ainda estão em estágio inicial. Entenda o paradoxo.

Por Redação Turbina IA22 de maio de 202610 min de leitura
IA no Brasil: Líder na América Latina em Adoção, mas 72% das Empresas Ainda Engatinham

O Brasil ocupa hoje uma posição paradoxal no cenário global de Inteligência Artificial: 71% dos profissionais brasileiros afirmam usar pelo menos uma ferramenta de IA no trabalho — 17 pontos percentuais acima da média mundial de 54%, a maior taxa entre todos os países analisados pela PwC no Global Hopes and Fears 2025. Ao mesmo tempo, 72% das empresas brasileiras ainda se encontram nos estágios iniciante ou experimental de adoção, conforme pesquisa da Abiacom e Lideres.ai publicada em janeiro de 2026. O talento existe, o entusiasmo também. O que falta é estrutura corporativa para transformar isso em vantagem competitiva real.

Resposta Rápida (TL;DR): O Brasil lidera a América Latina em maturidade de IA e está entre os primeiros globalmente em adoção por trabalhadores, mas apenas 25% das empresas têm IA em produção efetiva. O governo federal comprometeu R$ 23 bilhões até 2028, o mercado de trabalho em IA é o que mais cresce no país, e o maior gargalo agora é governança e estratégia corporativa — não falta de tecnologia.

O Brasil Lidera na América Latina — Com Ressalvas

Números recentes de três fontes independentes convergem para o mesmo diagnóstico: o Brasil é o país mais avançado em IA na região, mas ainda está distante das economias líderes globais.

No Salesforce Global AI Readiness Index, o Brasil soma 18,0 pontos, à frente do México (15,3) e da Argentina (14,1) — porém ocupa apenas a 13ª posição entre 16 economias avaliadas globalmente. A dimensão mais fraca é inovação (0,5 ponto contra média global de 1,7) e investimento (0,4 contra 1,4), revelando que a adoção no país ainda depende mais do entusiasmo individual do que de ecossistemas corporativos robustos.

Já o Latin American Artificial Intelligence Index (ILIA) 2025, publicado pela CEPAL, classifica Brasil, Chile e Uruguai como países "pioneiros", com pontuação acima de 60 — a única categoria que supera os demais 16 países analisados na região. O mesmo relatório, porém, alerta que a América Latina como um todo representa apenas 1,12% do investimento global em IA, apesar de responder por 6,6% do PIB mundial.

Indicador Brasil Média Global
Profissionais que usam IA no trabalho 71% (PwC, 2025) 54%
Uso diário de IA generativa 26% (PwC, 2025) 14%
Empresas com IA em produção 25% (Bain, 2025)
Empresas em estágio inicial/experimental 72% (Abiacom/Lideres.ai, 2026)
Empresas com orçamento dedicado a IA 42% (Bain, 2025)

A Corrida por Talentos: Cargos em IA Lideram o Crescimento

No mercado de trabalho, a tendência é inequívoca. O relatório LinkedIn Empregos em Alta 2026, baseado em contratações entre janeiro de 2023 e julho de 2025, elege o cargo de Engenheiro(a) de IA como o que mais cresce no Brasil. O ranking inclui ainda Pesquisador(a) de IA, Cientista de Dados e Analista de Machine Learning entre as 25 funções de crescimento mais acelerado.

A demanda se reflete nos salários. Dados do Glassdoor Brasil (2026) mostram a seguinte faixa para Engenheiros de Machine Learning:

Nível Salário Médio Mensal
Júnior R$ 4.996
Pleno R$ 10.167
Sênior R$ 16.942
Top 10% (sênior) R$ 27.893

O setor de TIC como um todo deve criar 147 mil novas vagas até o fim de 2025, segundo projeção citada por Multifaculdade, com forte concentração em funções que exigem capacidade de trabalhar com IA, automação e análise de dados.

Além disso, a própria pesquisa LinkedIn aponta que as vagas que exigem competências em IA cresceram 4 vezes mais rápido do que o total de vagas abertas no Brasil — um sinal claro de que a transição do mercado está em marcha acelerada.

O Gargalo Corporativo: Entusiasmo Sem Estratégia

Se o lado dos profissionais vai bem, o lado das empresas revela lacunas estruturais. A pesquisa da Abiacom em parceria com a Lideres.ai (200 entrevistas realizadas em outubro e novembro de 2025, divulgada em janeiro de 2026) retrata o seguinte cenário:

  • 59,1% das empresas não têm diretrizes formais para uso de IA
  • 47,4% dos profissionais usam ferramentas de IA sem aprovação da empresa (Shadow AI)
  • 70% dos entrevistados identificam atividades que poderiam ser automatizadas, mas a empresa ainda não automatizou
  • Setores de RH, Jurídico, Compras e Logística apresentam os menores índices de adoção

A pesquisa da Bain & Company de maio de 2025 aprofunda o diagnóstico: embora 67% das empresas brasileiras considerem IA uma prioridade estratégica, apenas 25% têm ao menos um caso de uso em produção — o dobro dos 12% registrados em 2024, mas ainda muito aquém do discurso. As duas maiores barreiras apontadas são:

  1. Infraestrutura tecnológica inadequada — citada por 39% das empresas
  2. Escassez de talentos internos — também apontada por 39%

O KPMG Global Tech Report 2024 traz um dado que resume o problema: 74% das organizações brasileiras afirmam ter implementado corretamente a IA nos seus negócios — mas apenas 15% atingiram o que o relatório do KPMG sobre IA em finanças (2025) classifica como estágio de liderança, enquanto 58% ainda estão em fase de implementação inicial.

Governança: O Elo Mais Fraco

Um número que chama atenção é o da Shadow AI: 47,4% dos profissionais brasileiros admitem usar ferramentas de IA sem a aprovação ou conhecimento da empresa, de acordo com a pesquisa Abiacom/Lideres.ai. Esse fenômeno é reflexo direto da ausência de políticas internas — 59,1% das empresas não têm diretrizes formais para o tema.

A pesquisa KPMG "Confiança, Atitudes e Uso de IA" (2025) reforça a preocupação: 70% dos respondentes brasileiros acreditam que é necessária uma legislação mais rigorosa sobre IA, e 84% pedem leis específicas para combater desinformação gerada por inteligência artificial. O uso está crescendo mais rápido do que as regras, tanto dentro das empresas quanto na sociedade.

O Ecossistema de Startups: Crescimento Real, Capitalização Ainda Tímida

O ecossistema de startups de IA brasileiro cresceu 177% entre 2016 e 2025, passando de 352 para 975 empresas com IA como tecnologia central, segundo levantamento da Startups.com.br. Em total, o país conta com mais de 1.400 startups que usam IA de forma relevante em seus produtos ou operações.

No entanto, o volume financeiro ainda não acompanha o entusiasmo: em 2025, startups de IA captaram US$ 867,7 milhões em 120 rodadas — mas apenas 2 das 11 maiores rodadas do ano foram para empresas cujo negócio principal é IA. A maioria dos grandes cheques ainda foi para fintechs, logtechs e negócios B2B já validados que usam IA como camada de eficiência, não como produto central.

A exceção notável foi a Enter (lawtech com foco em IA), que captou US$ 36,8 milhões — a maior rodada de uma startup genuinamente AI-first do ano.

A Aposta do Governo: R$ 23 Bilhões até 2028

Em julho de 2024, durante a 5ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, o governo federal lançou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) 2024–2028, com R$ 23 bilhões em investimentos previstos. O plano é estruturado em cinco eixos:

  1. Infraestrutura de computação de alto desempenho (incluindo um supercomputador nacional)
  2. Formação de talentos em IA
  3. Aplicações no setor público
  4. Inovação no setor produtivo
  5. Governança e ética

O plano sucede a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial (EBIA), lançada em 2021 pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, que estabeleceu os princípios éticos e as áreas prioritárias, incorporando cerca de 1.000 contribuições de consulta pública. Em outubro de 2025, a Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado aprovou a atualização da EBIA para alinhá-la às novas capacidades da IA generativa.

No ranking de inovação, o Brasil ocupa a 52ª posição entre 139 economias no Índice Global de Inovação 2025 da OMPI — duas posições abaixo do ano anterior, mas 10 posições acima de 2020 (62ª). No Ranking de Competitividade Digital do IMD 2025, o país avançou quatro posições, chegando ao 53º lugar entre 69 nações, com o maior progresso registrado em "prontidão para o futuro" (+3 posições).

O Que os Dados Dizem Sobre o Futuro

O Microsoft Work Trend Index 2026, que ouviu 20.000 trabalhadores em 10 países (incluindo o Brasil), descreve um "Paradoxo da Transformação": profissionais adotam IA rapidamente, mas as organizações continuam recompensando métricas tradicionais de curto prazo. Apenas 19% das organizações foram classificadas como "Frontier" — aquelas onde tanto a prontidão dos funcionários quanto a maturidade organizacional estão alinhadas.

Para a Bain & Company, os impactos de quem já implementou IA no Brasil são concretos:

  • +14% de aumento de produtividade com IA generativa
  • +9% de crescimento nos resultados financeiros
  • 95% de redução no custo de uso de LLMs desde 2022

A pergunta, portanto, não é se a IA vai transformar a economia brasileira — é quão rápido as empresas vão sair do piloto e entrar em escala.

Perguntas Frequentes

1. O Brasil realmente lidera o uso de IA entre os trabalhadores globalmente?

Sim. A pesquisa PwC Global Hopes and Fears 2025 identificou que 71% dos profissionais brasileiros usam IA no trabalho, a maior taxa entre todos os países analisados e 17 pontos acima da média global de 54%. O uso diário de IA generativa no Brasil (26%) é quase o dobro da média mundial (14%).

2. Por que tantas empresas brasileiras ainda estão na fase inicial, se a adoção individual é tão alta?

A principal explicação está na falta de governança: 59,1% das empresas não têm políticas formais de IA, e 47,4% dos profissionais usam ferramentas por conta própria sem aprovação corporativa (Shadow AI). O uso individual cresceu organicamente, mas não foi acompanhado por estratégia, infraestrutura ou processos formais nas organizações.

3. Quais são as profissões de IA mais bem pagas no Brasil hoje?

De acordo com o Glassdoor Brasil (2026), Engenheiros de Machine Learning sênior ganham em média R$ 16.942 por mês, podendo chegar a R$ 27.893 no topo da faixa. Profissionais plenos ficam na faixa de R$ 10.167 mensais. O LinkedIn aponta o cargo de Engenheiro(a) de IA como o que mais cresce no país, com aceleração de contratações 4 vezes superior à média geral do mercado.

Fontes e Referências

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